Nossa interpretação sobre a classificação da OMS sobre o potencial cancerígeno de produtos processados de carne e de carnes vermelhas

No dia 26/out a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou nova classificação para carnes processadas e carne vermelha em relação aos seus potenciais como causadoras (ou possíveis causadoras) de câncer no intestino grosso (devido à alteração de células do órgão por meio de compostos formados após a digestão deste alimento). Evidências menos conclusivas relacionaram também estes alimentos como potenciais causadores de câncer de pâncreas e da próstata.

O estudo foi realizado pelo IARC (Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, sigla em Inglês). Veja aqui o comunicado à imprensa http://www.iarc.fr/en/media-centre/pr/2015/pdfs/pr240_E.pdf e a publicação oficial: Carcinogenicity of consumption of red and processed meat – The Lancet Oncology.

As carnes processadas ficaram como alimentos Cancerígenos (Categoria 01) e carnes vermelhas (de mamíferos: bovina, suína, ovina, caprina, equina) foram classificadas como Provavelmente Cancerígenas (Categoria 02A).

As categorias criadas pelo IARC para classificar as substâncias conforme seu potencial causador de Câncer são:

  • Grupo 01: Cancerígeno para humanos
    • *Os dados científicos existentes evidentes para comprovar sua relação com o desenvolvimento de Câncer.
  • Grupo 02A: Provavelmente cancerígeno para humanos
    • *As evidências existentes são limitadas para comprovar a relação da substância com o desenvolvimento de Câncer.
  • Grupo 02B: Possivelmente cancerígeno para humanos
  • Grupo 03: Sem classificação quanto ao potencial cancerígeno para humanos
  • Grupo 04: Provavelmente não-cancerígeno para humanos

Indo direto ao ponto, concluímos que a OMS manteve o consumo de carne processada e carne vermelha permitidos, porém sem exagero.

Coisa simples: consuma o alimento que quiser, com bom senso. Mantenha uma alimentação equilibrada (carboidratos, proteínas, lipídeos, frutas, vegetais, fibras…) e pratique atividade física regularmente.

Pensando sobre a mesma perspectiva, a ocorrência de câncer na humanidade vem aumentando com o passar das décadas e com a evolução da tecnologia. Cada vez mais alimentos processados (industrializados), mais sedentarismo, mais poluição, mais carros, mais lixo, e até mais pessoas no Planeta Terra. Desta forma é claro que a ocorrência da doença aumente, não? Como a ocorrência de qualquer outra doença é maior quanto maior o número de pessoas existentes.

Tudo consumido em excesso pode se tornar cancerígeno. Se comermos produtos processados de carne todo dia por anos sem parar (como publicou a OMS: 50g/dia durante muitos anos), concordamos que ficamos mais susceptíveis ao câncer no intestino: aumentam as chances em 18% de desenvolvermos câncer colorretal, e restam 82% de chance de não desenvolvermos. Como curiosidade, no caso do tabaco, as chances aumentam 2000%.

Mas afinal, o que é carne processada segundo o IARC? É toda carne que se transformou por processo de salga, cura, fermentação, defumação e outros métodos para alterar o sabor ou melhorar a conservação. Por exemplo: linguiça, bacon, salsicha, presunto e até peito de peru (que não é carne vermelha).

A divulgação destas classificações do IARC pela OMS causou grande movimentação na mídia pelo mundo todo, tanto por quem apoia a decisão quanto por quem não concorda. A ABIEC (Associação Brasileira das Industrias Exportadoras de Carne) e a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) publicaram notas (primeira, segunda) fortalecendo as características nutricionais da proteína animal e sua importância na alimentação da população mundial.

Continuando, Samuel Aguiar Jr, cirurgião-oncologista do A.C.Camargo, disse que o problema de se colocar o consumo das carnes processadas na categoria 1 de risco, a mesma do tabaco e do amianto, é que nessa categoria geralmente não existe consumo moderado. “Você não fala para um paciente fumar ‘um pouquinho’, e sim para não fumar. Ninguém recomenda que alguém seja exposto a só ‘um pouquinho’ de amianto“, diz. No caso das carnes processadas, afirma, não é o caso de evitá-las, mas sim de remover da rotina – não há grande risco se o consumo for esporádico.

Além do mais, diversos relatórios, editoriais, colunistas e matérias de grandes redes de notícias e órgãos científicos publicaram sua posição. Ao revisar* este material podemos levantar pontos interessantes:

  • O IARC já avaliou o potencial cancerígeno de aproximadamente 940 substâncias, e somente uma foi classificada no Grupo 04 (http://monographs.iarc.fr/ENG/Classification/).
  • Dos 22 dois cientistas do IARC, sete não votaram a favor da publicação destas classificações. Praticamente um terço!
  • O relatório científico não foi divulgado.
  • “Embora haja evidências epidemiológicas para uma associação estatisticamente significativa entre o consumo de carne processada e o câncer colorretal, é importante enfatizar que o efeito é relativamente pequeno e o mecanismo está mal definido”, disse o professor Ian Johnson, membro emérito do Institute of Food Research do Reino Unido.
  • O tamanho do risco não é classificado.
  • Por exemplo, o potencial cancerígeno do consumo de carne processada de do tabaco não é o mesmo, porém estão no mesmo Grupo 01. Além do tabaco, também estão neste grupo bebidas alcoólicas, radiação solar, substâncias radioativas como o Rádio, vírus da Hepatite B e C, poluição do ar, benzeno, cinzas e serragem.
  • Já no Grupo 02A, no qual a carne vermelha foi inserida, a erva mate também está. E o chimarrão e tereré, como ficam?
  • O câncer colorretal é um raro tipo que pode ser prevenido com rastreamento por colonoscopia. Os pacientes devem iniciar esse exame após os 40 anos.
  • O consumo de expressivas quantidades de verduras, legumes, frutas, concomitantemente à ingestão de carne vermelha, nos protege, pelo menos em parte, do efeito carcinogênico alertado pela OMS.
  • Existem doenças mais letais do que câncer colorretal relacionadas ao consumo exagerado de carnes processadas.
  • Parece haver evidências sólidas de que dietas ricas em carnes processadas estejam associadas a um pequeno aumento da probabilidade de desenvolver câncer de cólon e reto, mas calcular o risco de cada um de nós é impossível, Dr. Drauzio Varella.

Terminando, e refletindo, não entendemos o por quê do alarde. Sob a linha de estudo da OMS, praticamente tudo tem potencial cancerígeno. ‘Potencial’, e não relação direta. Afinal, esta anormal multiplicação celular é um mistério, hoje a medicina caminha para controlá-la, mas sua causa muito provavelmente é multi-fatorial.

Já vimos o ovo (sem gema, depois sem clara), o tomate e a laranja serem condenados e atualmente indicados ao consumo. Recentemente o glúten e a lactose foram condenados e já vemos notícias absolvendo-os. E hoje os produtos de carne processada e carne vermelha ganharam os holofotes.

Acreditamos na seriedade do IARC, OMS e demais órgãos responsáveis pela saúde humana. Também acreditamos que nós, a população, não entendemos a profundidade e a necessidade destes estudos, e incluo todos nesta ‘população’: consumidores, empresários do ramos alimentício e jornalistas por exemplo. Quem está por trás destes estudos com certeza têm suas razões, vivem em “outra esfera” científica observando e pesquisando a população mundial e suas tendências. Ou algo neste sentido.

O que acreditamos mesmo em relação aos alimentos e seu consumo em geral é na alimentação saudável.

*O material revisado foi:

Nacionais:

Internacionais

II Simpósio Internacional de Ciência da Carne

Nos dias 22 e 23 de outubro participamos do II SICCA (II Simpósio Internacional de Ciência da Carne) realizado pelo departamento de Zootecnia da USP/Pirassununga-SP. Foi muito bom, adoramos os temas abordados. Sem contar que a seleção dos palestrantes estava de alto nível, com diversas referências internacionais na área de ciência da carne:

  • Prof. Dr. José Fernando Piva Lobato (UFRGS)
    • Palestra: Limites e oportunidades na produção de carne a pasto
  • Fabio Montossi – Instituto Nacional de Investigación Agropecuaria (INIA)
    • Palestra: Farm to fork: The Uruguayan experience
  • David A. King (Andy) –Meat Animal Research Center
    • Palestra: Use of technologies to improve carcass uniformity and meat quality at industry level
  • Dave E. Gerrard – Virginia Tech
    • Palestra: Understanding muscle growth and development and its effects on meat quality
  • John Basarab – University of Alberta
    • Palestra: Impact of genetic selection for feed efficiency on meat quality
  • Chris R. Calkins – University of Nebraska/EUA
    • Palestra: Strategies to enhance meat quality
  • Eero Puolanne – University of Helsinki/Finlândia
    • Reduction of sodium intake from meat products
  • Rhonda Miller – Texas A&M University
    • Consumer Attitudes of beef flavor and flavor drivers of consumer acceptance

Só fera!!!

Destacamos:

– O trabalho do Andy King de predição de maciez da carne por análise digital de imagem do contra-filé ainda na carcaça.

– A didática do Dr. Gerrard, foi demais. Aprofundou bastante no tema fisiologia muscular, importância do pH e influenciadores da qualidade da carne.

– O Dr. Calkins apresentou sobre maciez da carne bovina, mostrando que é possível garanti-la e até ser certificada pelo USDA como “macia” ou “muito macia”.

– A palestra do Dr. Eero Puolanne da Universidade de Helsinque, Finlândia. Foi fenomenal. O tema era redução de sódio em produtos cárneos processados. Porém, os pontos levantados por ele foram os desafios de reduzir o sódio de maneira geral na alimentação pública, mostrando o exemplo do que foi feito na Finlândia. A grosso modo, o saleiro deve ficar na mesa e não cozinha. Cozinhe tudo sem sal e coloque sal em seu prato na hora do consumo. Desta forma a quantidade de sódio ingerida diariamente é reduzida significativamente.

– E a última, Rhonda Miller da Texas A&M Univesrity e especialista em flavor da carne bovina, o nosso “sabor”, nossa sensação ao comermos formada pelo gosto e aroma. Foi muito interessante. Em sua linha de pesquisa ela formulou um método de medir quantitativamente o sabor percebido por nós. Transformou sabor em números! Demais….

Parabenizamos o professores e estudantes organizadores do evento, foram dois ótimos dias onde também encontramos amigos acadêmicos e pesquisadores de carne bovina da ESALQ e da própria USP/Pirassununga.

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